Postado em 08 de Julho às 09h56

Resíduos de serviços de saúde em meio à pandemia

Gestão de Saúde (33)

Tratamento é fundamental para mitigar transmissão do novo coronavírus

Em março, no início da pandemia de covid-19, a Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe) estimava crescimento de 10 a 20 vezes no volume de resíduos hospitalares. Porém, balanço divulgado em abril apontou redução média de 17% na primeira quinzena de abril. Para a Abrelpe, “diferentemente do que se esperava e do que tem sido observado ao redor do mundo, que tem apresentado índices de crescimento desse tipo de resíduo, a constatação traz um alerta pois os dados mostram que o Brasil está na direção oposta, o que pode indicar uma deficiência na segregação desses materiais infectantes e sua destinação a locais inadequados.”

Se por um lado, houve crescimento das taxas de ocupação dos leitos hospitalares, por outro, ocorreu decréscimo no número de procedimentos eletivos realizados em hospitais. Por medidas de contingência, o Governo de Santa Catarina, a exemplo de outros estados, determinou a suspensão de todos os procedimentos cirúrgicos eletivos de média e alta complexidade que necessitem de anestesia geral, em hospitais não privados.

Anderson Oliveira, administrador hospitalar, Mestre em Ciências da Saúde e Meio Ambiente e assessor comercial da Servioeste, calculava o declínio na geração de resíduos de saúde (RSS) na ordem de 30%, em face ao cancelamento de cirurgias eletivas. "Esse percentual só não aconteceu porque as unidades de saúde que tratam pacientes portadores do covid-19 devem descartar resíduos comuns e extraordinários como resíduos infectantes, devido ao elevado potencial de infecção deste vírus.”

Caroline Beutler, engenheira ambiental e sanitarista, entende que há uma variação da produção de resíduos de serviços de saúde a depender do nível em que cada região se encontra dentro da pandemia. “Apesar dos procedimentos e cirurgias eletivas terem diminuído, estima-se que a frequência de troca dos equipamentos de proteção individual (EPIs) tenha aumentado, assim como as taxas de ocupação hospitalar”, ressalta. Todos os EPIs utilizados em serviços de saúde são enquadrados pela Anvisa como resíduos de saúde (RSS).

Números 

Danielly Negrão, Doutora em Enfermagem com ênfase em gestão de resíduos de serviços de saúde e professora da Universidade Estadual de Londrina (UEL), comenta que a taxa de geração de resíduos de serviços de saúde (RSS) por leito hospitalar é, em média, 1,5 quilos/paciente/dia, no caso de paciente de média complexidade. Já paciente de UTI em situações habituais gera 2,2 quilos de resíduos ao dia. Uma cirurgia de duas horas, produz, em média, 3,7 quilos de resíduos.

A Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) informa que o tempo médio de permanência de um paciente em UTI num hospital público gira em torno de seis dias. Pacientes graves infectados pelo novo coronavírus ficam entre 14 e 21 dias na UTI. O atendimento a um paciente covid-19 internado por duas semanas em UTI, produz cerca de 30 quilos de resíduos que precisam passar por tratamento adequado antes da disposição final em aterro sanitário licenciado.

Como a taxa de ocupação média atual dos leitos do Sistema Único de Saúde (SUS) está em torno de 95% (15,2 mil, segundo dados da AMIB), a geração de resíduos de saúde ao dia equivale a 33,4 toneladas. Estes números representam só o atendimento a pacientes de UTI em todo o Brasil, sem contabilizar as internações em enfermarias.

Impactos

O aumento na produção de resíduos pode gerar impactos significativos para hospitais com altas taxas de ocupação de leitos, além de interferências na cadeia de gerenciamento seguro desses resíduos, afirma doutora Danielly. “A composição da massa residual mudou muito. Isso é impactante. O aumento da massa residual não será proporcional em todos os grupos de resíduos classificados pela Anvisa. O aumento maior será nas classes dos resíduos infectantes e químicos, havendo diminuição dos reciclados, já que todos os resíduos provenientes de pacientes da covid-19 devem ser considerados infectantes. Não se pode reciclar nada. A diminuição identificada pela Abrelpe era prevista do ponto de vista prático, porque houve uma mudança da demanda e direcionamento de fluxos de atendimento. Os hospitais terciários (hospitais maiores com leitos de UTI) estão mais vazios, mas com pacientes mais graves e com leitos bloqueados pelo isolamento. Além disso, todas as cirurgias eletivas foram canceladas”, relata Danielly Negrão.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) recomenda que os resíduos provenientes da assistência a pacientes suspeitos ou confirmados de infecção pelo covid-19, sejam enquadrados na categoria A1, conforme Resolução RDC/Anvisa nº 222/2018. Isso porque o Ministério da Saúde classificou o novo coronavírus como agente biológico de alto risco individual e moderado risco para a comunidade.

Desta forma, os resíduos provenientes da assistência a pacientes da covid-19 devem ter destinação adequada. A segregação (separação) incorreta destes resíduos pode expor a comunidade a riscos e gerar impactos negativos ao meio ambiente.

Ação dos profissionais de saúde no controle da infecção

O cenário atual de pandemia demanda cuidados especiais em todos as etapas do ciclo de gestão dos resíduos de saúde. Os profissionais dos serviços geradores de resíduos de saúde são responsáveis pela etapa de segregação, conforme normativa da Anvisa (RDC 222), e devem passar por treinamentos sobre as formas de segregação, acondicionamento, além de seguir prerrogativas de segurança ocupacional e ambiental.

Na dinâmica de gestão de resíduos dentro de um hospital, técnicos e funcionários contribuem para identificar inadequações quanto à segregação e armazenamento. No caso de uma não-conformidade, deve-se imediatamente proceder com o correto acondicionamento, conforme o grupo do resíduo, afirma Philipe Pires Pereira Reis, Mestre em Engenharia Química e responsável técnico do Grupo Servioeste, unidade Queimados (RJ).

Danielly Negrão afirma que a eficiência na gestão dos RSS exige dos profissionais da saúde um posicionamento de consumo consciente para diminuir a quantidade de resíduos gerados e evitar desperdícios. O descarte correto nas lixeiras específicas para cada grupo evita a contaminação dos demais resíduos, a consequente elevação dos custos e a exposição dos trabalhadores a riscos ocupacionais, como acidentes com perfurocortante. "Conhecer a composição dos RSS, as características do perfil de geração, os locais que mais geram resíduos, os horários de pico são ações estratégicas para o bom gerenciamento”, conclui professora Danielly.

Para que a gestão funcione de forma eficaz, todos os serviços de saúde devem manter o Plano de Gerenciamento de Resíduos de Serviços de Saúde (PGRSS) atualizado, descrevendo todas as ações relativas ao gerenciamento dos resíduos de saúde.

Doutora Renata Orofino, coordenadora médica da Comissão de Controle de Infecção do Hospital de Campanha da Prefeitura do Rio de Janeiro, no Riocentro, ressalta as regras da Anvisa: “É fundamental que todo hospital tenha um Plano de Gerenciamento de Resíduos (PGRSS) dividido em duas etapas: interna e externa. Na primeira, são mapeados todos os processos que ocorrem dentro da instituição, já na segunda, as etapas que ocorrem fora do hospital. O plano reduz a produção do resíduo, os custos com o descarte e reduz o risco de acidentes de trabalho, principalmente, os perfurocortantes.”

Além do Plano de Gerenciamento de Resíduos de Serviços de Saúde (PGRSS), hospitais são obrigados a contar com uma Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH), e capacitar todos os envolvidos nos processos de gestão de resíduos. 

Neste momento de pandemia, para além do trabalho de todos os profissionais da saúde, os serviços de coleta, transporte e tratamento de resíduos de saúde são fundamentais para mitigar a transmissão do coronavírus, reduzir os impactos ao meio ambiente e preservar a saúde coletiva.

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