Postado em 27 de Janeiro às 14h52

Ciência X espiritualidade

Medicina diagnostica espírito dos pacientes para encontrar reais causas de doenças

Angela Piana

Sabe aquela máxima de que a fé tem poder de cura? Talvez você tenha exemplos dentro da sua família, conheça alguém no círculo de amigos ou já ouviu histórias de pessoas que atribuem à fé ou à esperança o fato de se verem livres de uma doença grave. As experiências, normalmente, ganham cunho religioso e acabam reduzidas a clichês de autoajuda. O que talvez você não saiba é que a ciência já considera a espiritualidade uma aliada da medicina e vai muito além da religiosidade.

Em encontro recente realizado no interior de Santa Catarina, médicos de diferentes especialidades promoveram um debate sobre a real interferência da espiritualidade na saúde física e mental dos pacientes, por meio de estudos de casos reais. São histórias como a da dona de casa que, com ajuda de orações, se viu curada de um câncer; do jovem com fobia social que conseguiu livrar-se de um trauma infantil com terapias; da amizade entre um paciente e um médico anestesista que prorrogou a vida e fortaleceu a luta contra o câncer de coluna; ou da mulher que manteve o autocontrole contra a dependência química por meio da prática diária de meditação.

São práticas, geralmente vistas como subjetivas, que, segundo os médicos, têm ganhado cada vez mais respaldo para os resultados da ciência. E não é de hoje. Ainda em 1988, a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu a espiritualidade como uma dimensão da saúde, validando sua abordagem não como religiosidade, mas como sentido de vida na busca por possibilidades que fortalecem.

Os debates sobre esta dualidade apontam que uma pessoa espiritualizada tem oito vezes menos chances de adoecer, sem contar que o sentido de positividade torna o indivíduo mais encorajado diante das adversidades da vida. Ao contrário, quem não consegue controlar as emoções e nutre sentimentos de raiva ou ingratidão tem mais possibilidades de adoecer.

No livro “Um Convite à Saúde”, o médico Felippo Pedrinola explica que situações de estresses constantes aumentam a produção de hormônios como o cortisol e adrenalina, que, a longo prazo, potencializam o risco de hipertensão, diabetes e arritmias cardíacas. O cortisol ainda diminui a função dos leucócitos, que são as células de defesa, deixando o organismo mais vulnerável às doenças.

Traumas tendem a criar doenças autoimunes

O sentimento é uma condição inerente ao ser humano. A forma de vivenciar as experiências de vida e suas reações diante de cada situação é distinta entre as pessoas. O médico psiquiatra Flávio Braga de Freitas, que atende na rede pública de saúde de Chapecó/SC, diz que a forma como vemos a vida é reflexo de como lidamos com nossos medos.

“Os traumas surgem porque não conseguimos absorver e comportar certas situações, principalmente as que ficam no nosso inconsciente. Passa um tempo e a gente pode até achar que superou, mas muitas vezes as marcas acabam escondidas em nosso subconsciente e daí vem o medo disso tudo voltar à tona. Esse entendimento que o nosso cérebro cria, tende a resultar em doenças autoimunes. As patologias que não são causadas por fatores externos são consequências das doenças de espírito”, explica.

Considerar o diagnóstico do espírito antes mesmo de tratar a doença tem sido uma prática frequente em muitos consultórios médicos. O dermatologista catarinense Márcio Baldissera afirma que a tendência é que os profissionais da saúde entendam que é preciso considerar a condição espiritual do paciente para encontrar a real causa das doenças.

“As doenças do corpo são sintomas das doenças do espírito. É muito comum a gente tratar o paciente de uma doença, mas logo depois vem outra e assim sucessivamente. Uma vez, um paciente que estava com alergia há muito tempo me disse: minha alma é que pede socorro. Desde então, passei a considerar esta declaração, pois eu não posso curar o corpo se é a alma que está doente”, salienta.

Baldissera alerta que mesmo espiritualizado, o paciente precisa manter o tratamento médico convencional e orienta: “práticas de exercícios físicos, meditação e ioga são condutas indicáveis”.

Além dos tratamentos convencionais, a medicina tem aberto espaço para outras práticas na prevenção e tratamento de algumas doenças. No Brasil, o debate sobre o assunto iniciou timidamente na década de 1970 e só em 2006 o Ministério da Saúde implementou a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares em Saúde. Atualmente, o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece 29 procedimentos como acupuntura, auriculoterapia e yoga, realizados na atenção básica, média ou de alta complexidade. 

Aceitação à morte

A sinalização de que as práticas complementares, que trazem muito da crença popular e são aliadas da medicina convencional, tem ido além da prevenção e tratamento de doenças. Sempre respeitando a espiritualidade do paciente, a aceitação à morte também vem ganhando atenção na área da saúde.

“É inevitável: nós vamos morrer, mas será mais fácil se aceitarmos. Nós profissionais da saúde temos a missão de ajudar o paciente a desconstruir a morte como algo pavoroso”, explica a enfermeira, professora universitária e especialista em espiritualidade na saúde, Leoni Zenevicz, que realiza terapias com pacientes em estágio terminal e seus familiares, no Hospital Regional do Oeste, em Chapecó/SC, através do programa Permissão de Partida.

“Nós reafirmamos o amor através da gratidão pelo corpo e pelas experiências que ele viveu, a partir da crença de cada paciente. A prática do perdão é trabalhada em família. É um momento de entendimento por tudo que se viveu. Em uma ocasião, um paciente ligou para o irmão com quem não conversava há muitos anos, houve muita emoção e pedido de perdão. Certamente ele se sentiu amado, entendeu que havia cumprido sua missão, e partiu no dia seguinte”, conta Leoni.

O trabalho do programa Permissão de Partida é desenvolvido por voluntários e incluiu orações, musicalização, meditação, massagens e outras práticas integrativas. Mais do que cuidados paliativos para alguns pacientes, este tipo de prática tem se mostrado um aliado importante da ciência para proporcionar qualidade de vida.

“A atenção à espiritualidade está ganhando espaço em centros médicos e trazendo benefícios aos pacientes, como diminuição de índices de depressão, maior controle da ansiedade e mais comprometimento com o tratamento, melhorando muito a qualidade de vida dessas pessoas”, destaca Leoni.

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