Postado em 18 de Dezembro de 2019 às 14h30

Um olhar além da reciclagem

Educação Ambiental (18)

Economia circular otimiza e prolonga uso de recursos e desponta como novo modelo econômico. Portugal lidera proposta que elimina desperdício e permite regeneração de materiais

Keli Magri

Como é seu consumo dentro de casa? Você reaproveita alimentos? Reutiliza a água? Compartilha energia? Vamos além: você conseguiria completar um mês sem nenhum desperdício ou, melhor, conseguiria repensar a forma de consumo para economizar ou até ganhar dinheiro com o que considerava lixo?

Essa lógica de desperdício zero, otimização dos recursos e reaproveitamento de materiais formam a base de um novo modelo econômico que desponta no mundo como alternativa para promover o desenvolvimento em meio a recursos finitos. Chama-se economia circular, proposta baseada na restauração e regeneração de materiais que vai além da reciclagem.

O método do novo modelo supera o atual sistema econômico linear, herdado da revolução industrial, (extrair – transformar – descartar) para repensar o uso de materiais e energia, utilizando componentes em diferentes ciclos técnicos e biológicos, o que otimiza e prolonga o uso dos recursos.

“Já foi importante e fez sentido extrair, transformar e descartar, agora não é mais, porque temos mais consumo, mais gente consumindo, estamos dentro de uma estrutura limitada, com recursos finitos. Tem que ser adotado novo modelo. A economia circular tem surgido como uma alternativa interessante para poder proporcionar crescimento e desenvolvimento mesmo com recursos limitados. Não é só falar de reciclagem, é uma proposta diferente, mais ampla. Não temos desperdício, não existe excesso e é desta forma que nós temos que passar a trabalhar em larga escala para tudo. Não podemos continuar num processo de desperdiçar recurso e jogar fora aquilo que é necessário”, explica Patrícia Berardi, professora especialista na área, doutora em administração, com pós-doutorado em Engenharia do Ambiente pela Faculdade de Engenharia da Universidade de Porto, Portugal.

Os portugueses, aliás, têm muito a ensinar sobre o assunto. A Cidade do Porto, que fica no norte do país, já há bastante tempo vem se colocando como uma cidade voltada à sustentabilidade. Já é Smarth City (Cidade Inteligente) e tem como meta se tornar “Cidade Circular” até 2030, o que significa adotar o novo modelo como base econômica. Para isso, elaborou medidas para criar e manter infraestruturas compartilhadas, criar diretrizes de circularidade para novas obras e empreender soluções inovadoras para transformar os resíduos em recursos.

A ação local está alinhada ao Plano de Economia Circular para a União Europeia, que possui ações macro e setoriais para os 28 países membros. Todos eles têm que chegar em 2050 com as metas locais cumpridas. 

“É um conjunto de políticas públicas, atrelado ao movimento do mercado, agregando o comportamento do consumidor. É um movimento de educação e conscientização da sociedade. Não adianta ter lei, empresas trabalhando para um foco, se a sociedade não entende e não faz a sua parte”, ressalta Berardi.

Aumento de renda e economia de € 32 milhões

Em Portugal, tanto o setor público quanto o privado adotaram o novo modelo, tento como foco prioritário resíduos, alimentos e energia (água, economia de baixo carbono, biodiversidade). Enquanto o primeiro mapeou e catalogou as iniciativas circulares para agregar valor às obras e produtos, o segundo já soma resultados.
Na Cidade do Porto, por exemplo, a empresa Lipor, que faz a gestão de resíduos de 11 municípios do norte de Portugal, começou a fazer compostagem com o material coletado e o transformou em composto orgânico.

Em um ano, 44 mil toneladas de resíduos orgânicos se transformaram em 11 mil toneladas de fertilizante natural, com demanda superior à capacidade de produção da empresa.

Outro exemplo é da empresa de telecomunicações Meo, que presta serviços de TV a cabo na cidade. Ao invés de descartar os decodificadores recolhidos das casas dos consumidores após fim dos contratos, a empresa os recondicionou para uso. Desta forma, ela conseguiu reutilizar 60% dos equipamentos e economizar € 32 milhões por ano.

Já a Amorim Cork, empresa que trabalha com rolhas para garrafas de vinho, passou a usar as sobras do material usado para extrair as rolhas em um novo subproduto. O que era resíduo virou novos compostos aplicados em produtos da construção civil, revestimento de automóveis, revestimento térmico, piso e carpetes e se transformou em uma nova empresa do grupo, Composites ACC.

São exemplos que para a especialista portuguesa, Patrícia Berardi, mostram que a economia circular realmente traz benefícios.

“O consumo da economia circular contraria o que foi muito utilizado na época da economia linear, na questão da obsolescência programada. Na circular isso não existe. Temos que pensar no uso prolongado de cada um dos recursos, uso máximo de cada um. Quando não for possível, pensar na reutilização, reparação para que a gente consiga usar um pouco mais esses mesmos recursos, para não tirar do ambiente o que de alguma forma a gente já tirou. Se não for mais possível, passamos para a reciclagem. A reciclagem é o processo menos indicado no processo de economia circular. Se vamos para a reciclagem a gente perde valor, temos que gastar mais energia para reprocessar parte dos elementos que compõem determinado produto. Vai existir sim um descarte, mas um descarte mínimo. A ideia é que a gente tenha cada vez menos que desperdiçar recursos”.

O primeiro passo, segundo Berardi, para otimizar o uso dos recursos no maior prazo possível está na escolha do modelo e design dos processos e produtos: quais os melhores materiais a serem usados em um determinado produto que permitam regeneração, processo biodegradável, não tóxico e que possa ser reutilizado em várias etapas, diversas vezes e em vários novos ciclos? O segundo é uso compartilhado da infraestrutura (energia e recursos) e o terceiro é o consumo circular.

“É preciso pensar nisso antes mesmo de começar a produzir, porque a economia circular se mostra muito positiva. Significa olhar para a natureza e trabalhar com a natureza”, enfatiza Berardi.

Modelo no Brasil

O tema da economia circular emergiu fortemente, em escala mundial, em 2012, mas discussões sobre sua implementação são recentes, particularmente no Brasil. A Lei Federal12.305/2010, correspondente à Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), prioriza a reciclagem, a logística reversa, a destinação final adequada dos resíduos, a eliminação dos lixões e a inclusão social dos catadores de materiais recicláveis, processos estes alinhados à economia circular.

Porém, com dez anos em vigor, no setor público, três mil municípios ainda possuem lixões e no privado as empresas esbarram na alta carga tributária para a reciclagem e na falta de normas específicas para a logística reversa, o que dificulta a reutilização dos produtos. A dificuldade de fiscalização no amplo território brasileiro também pesa para a baixa efetividade da PNRS.

No setor industrial, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) elaborou o Mapa Estratégico da Indústria 2018-2022 e incluiu a economia circular como oportunidade para o uso mais eficiente dos recursos e aumento da competitividade da indústria. Entre os objetivos centrais apontados no documento está a gestão de resíduos como recursos de valor, com destaque para o plástico, aumentando a proporção de reciclagem desse material dos atuais 9,8% para 12,5% até 2022.

De acordo com o economista, mestre e doutor em engenharia de produção e pós-doutor em Administração pela USP, Christian Luiz da Silva, em artigo do Instituto Paranaense de Reciclagem (Inpar), a economia circular ainda é um desafio para o Brasil que precisa iniciar um processo de mobilização da sociedade para se associar no objetivo de reuso, reciclagem e diminuição dos resíduos.

“Os resultados de uma economia linear demonstram que entre 80 e 90% do que é consumido se torna resíduo para disposição final ou incineração em menos de 12 meses e 20% da extração de recursos naturais se torna resíduo a cada ano para este mesmo fim. Contudo, há um vazio institucional sobre o desenvolvimento da economia circular, que coloca a indústria de resíduos no centro destas mudanças e abre uma janela de oportunidades para novas políticas públicas e novas legislações consonantes a este tema”.

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