Postado em 25 de Setembro de 2019 às 08h46

SOS Amazônia!

Educação Ambiental (22)

Em 50 anos, maior floresta tropical do mundo já perdeu 20% do seu território pelo desmatamento. Extração ilegal, queimadas e conversão em pastagem ou plantio comprometem economia brasileira e impactam no clima mundial

Por Keli Magri


Além de fabricar chuva e irrigar o país inteiro, a Floresta Amazônica possui flora e fauna com potencial medicinal, desempenha um papel-chave na redução dos níveis de poluição e tem influência direta no clima do planeta. Reconhecida como um repositório de serviços ecológicos para os povos indígenas, às comunidades locais e ao restante do mundo, a Amazônia também tem grande impacto econômico com a extração de produtos nativos da biodiversidade.

Toda essa imponência sustentável tem sido comprometida por um fator que voltou ao centro dos debates: o desmatamento. De acordo com o Fundo Mundial para a Natureza (WWF, da sigla em inglês), ONG de defesa do meio ambiente, a floresta brasileira perdeu 20% de sua área desde 1970. São 1,1 milhão de km² de terra a menos em meio século, 50 mil km² só nos últimos sete anos. Se o assunto for as queimadas que têm dominado o noticiário mundial, os números são mais expressivos ainda: a floresta perdeu 23 mil hectares de vegetação só neste ano, com 72 mil focos de incêndio, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). 

Quais os impactos desta devastação? Para o professor de Ciências Biológicas da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), especialista em Ecologia Florestal, Geraldo Ceni Coelho, além de contribuir para o aquecimento global em curso e impactar na saúde pública, o desmatamento prejudica as populações locais e a economia da Amazônia e do País.

Segundo ele, há uma correlação entre queimadas e desmatamento na Amazônia que corroboram com os dados do INPE e do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam): os municípios da região com mais alertas de desmatamento são também os que mais registraram focos de incêndio.

“O desmatamento se dá pela extração ilegal de madeira, logo depois pelas queimadas. Se desmata, extrai a madeira e queima para converter a floresta em outra atividade. A maior parte das áreas que estão sendo desmatadas da Amazônia destina-se à conversão em pastagens ou em plantio de grãos, principalmente soja”, destaca o professor ao detalhar os prejuízos da degradação.

“Derrubar floresta prejudica em primeiro lugar a população da Amazônia, porque boa parte da economia está relacionada às atividades florestais, como a extração da borracha, cacau, café e castanha. Essas atividades já se encontram ameaçadas porque, à medida que se desmata para converter em pastagens ou em plantio de grãos, tira-se recurso da população local e perde-se produtividade. Estima-se que uma castanheira produza por ano 300kg de castanha, enquanto um hectare de pastagem produz, no máximo, 100kg de carne por ano. Quanto vale 1 kg de castanha e quanto vale 1kg de carne? Uma árvore em pé gera um retorno econômico muito maior do que um hectare de pastagem”.

A área da Amazônia Legal abrange nove estados: Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima e parte dos estados de Mato Grosso, Tocantins e Maranhão. A região que apresenta maiores índices de desmatamento é aquela onde a fronteira agrícola avança em direção à floresta: são 500 mil km² de terras que vão do sudeste do Pará para o oeste, passando por Mato Grosso, Rondônia e Acre. Essa porção de terra é chamada de “arco do desmatamento da Amazônia”.

O que fazer para conter o desmatamento?

A resposta do professor Geraldo Ceni Coelho é direta e encontra respaldo nas estatísticas: “é um caso de polícia”. Segundo relatório do Fundo Mundial para a Natureza, três quartos do planeta já foi impactado pela ação humana. Há uma projeção que, em 2050, apenas 10% da Terra esteja livre da interferência humana.
É esta interferência que precisa ser freada.

“Embora na década passada houve um trabalho de redução do processo criminoso de grilagem na Amazônia, o problema ainda não foi resolvido totalmente. Além de criminoso, o desmatamento é contra a economia do País. O que a sociedade civil precisa decidir é se vai permitir que esses grupos criminosos continuem a agir desta forma”, ressalta o especialista ao sugerir um caminho para conter o problema.

“O Brasil precisa de políticas públicas para incentivar o desenvolvimento de alternativas econômicas que usem os produtos naturais da floresta. Organizar a produção que é ecologicamente sustentável a partir da floresta e não contra ela. São necessárias ações mais sustentáveis e mais amigáveis com a floresta, porque ela ainda nos reserva atividades infinitas e economicamente viáveis. Já avançamos muito, mas no momento estamos vendo um desmantelamento. Mostramos preocupação com o desmatamento, mas seguimos no caminho exatamente contrário da preservação”. 

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