Postado em 01 de Dezembro de 2020 às 10h34

Dezembro Vermelho

Especial (28)

Estigma e discriminação são os principais entraves no enfrentamento à Aids

40 anos depois do início da pandemia de HIV no mundo, a população infectada ainda sofre com discriminação e estigma, é alijada do convívio familiar e social, de oportunidades de estudar e trabalhar.

Dirceu Hermes, Presidente do Grupo de Apoio à Prevenção à Aids (Gapa), relembra que na década de 1980, quando a Aids foi descoberta, receber o diagnóstico era também receber uma sentença de morte. Na época, a estimativa de vida era de seis meses. Atualmente, a realidade é outra. “A doença não tem cura, mas tem tratamento. A Aids em si não é uma doença incapacitante, mas o preconceito gera distanciamento social e dificuldades no combate à disseminação e tratamento”.

Pesquisa sobre o Índice de Estigma em Relação às Pessoas Vivendo com HIV e Aids no Brasil mostrou que das 1.784 pessoas entrevistadas,

- 64,1% já sofreram alguma forma de estigma ou discriminação pelo fato de viverem com HIV ou AIDS;
- 46,3% já foram afetadas por comentários discriminatórios ou especulativos;
- 41% dizem ter sido alvo de comentários feitos por pessoas da própria família.

As situações de discriminação incluem assédio verbal, perda de fonte de renda ou emprego e agressões físicas.

Dirceu Hermes narra que muitas pessoas deixam de fazer o teste para identificar sua sorologia pelo medo de serem descobertas e julgadas. “A Organização Mundial da Saúde estabeleceu como meta testar 90% da população, tratar 90% dos casos positivos e zerar a carga viral de 90% dos tratados até 2020. Infelizmente, estes índices não serão alcançados em partes devido ao estigma e discriminação social, que atrapalham a testagem, a adesão ao tratamento, e a prevenção, com no uso da camisinha que deve ser acordada nas relações sexuais.” A OMS agora trabalha com metas para 2025.

Intolerâncias enraizadas no contexto sociocultural e desinformação são as causas da construção de estereótipos e preconceitos. Aids nada tem a ver com gênero e sim com o ato sexual desprotegido e compartilhamento de seringas. O uso de preservativos é uma forma eficaz de prevenir a infecção pelo HIV.

Em maio de 2020, o Supremo Tribunal Federal (STF) revogou uma restrição discriminatória da Anvisa e do Ministério da Saúde, que proibia a doação de sangue por homens gays .

“Proibir que gays sejam doadores de sangue aumenta o estigma de que a Aids é uma doença de gays. O momento é delicado, a intolerância e o preconceito em torno de diferentes segmentos sociais têm aumentado. Gay, negros, mulheres, indígenas, pobres são tratados com desrespeito. Essa intolerância tem que acabar, mas como se as instituições não dão sua contribuição? “Aids não tem cura, preconceito sim!”, finaliza Dirceu.

HIV no mundo

Segundo dados do mais recente relatório da ONU UNAIDS, em 2019

- 1,7 milhão de pessoas foram infectadas com o HIV no mundo;
- 320 mil infectados são crianças e adolescentes;
- Toda a semana, em torno de 5.500 jovens entre 15 e 24 anos são infectadas pelo HIV;
- Cerca de 110 mil crianças morreram em decorrência da Aids;
- O vírus HIV contamina uma criança ou jovem a cada 100 segundos;
- 21% das novas infecções por HIV na América Latina aconteceram em pessoas entre 15 e 24 anos; 
- 12,6 milhões de pessoas infectadas pelo HIV ainda não têm acesso a tratamento.


O tratamento do HIV/Aids permite que as pessoas portadoras tenham vida longa e saudável, além de ajudar na diminuição da transmissão do HIV. Estigma, discriminação, criminalização e violência impedem a obtenção de cuidados necessários.

Winnie Byanyima, diretora executiva do UNAIDS afirma: “A falha coletiva em investir o suficiente em respostas ao HIV abrangentes, baseadas em direitos e centradas nas pessoas teve um preço terrível. Para colocar a resposta global de volta nos trilhos, será necessário colocar as pessoas em primeiro lugar e combater as desigualdades nas quais as epidemias prosperam”.

Relatório da Unaids 2020 aponta que as políticas públicas e ações público-privadas devem ter como meta focar na alta cobertura de HIV e serviços de saúde reprodutiva e sexual, redução do estigma e da discriminação e remoção de leis e políticas punitivas.

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