Postado em 07 de Agosto às 10h56

Economia circular

Especial (24)

Ações estimulam a criação de novas fontes de emprego e renda

A economia circular envolve conceitos como inclusão, energias renováveis, sustentabilidade e harmonia com a natureza. A proposta circular busca os “rs” da sustentabilidade: repensar, respeitar, responsabilizar, recusar, reparar, reduzir, reaproveitar, reciclar, repassar.

Ações de economia circular reinventam modos de produção e focam no bem-estar da sociedade, por meio de uma visão holística que engloba natureza e seres humanos. Sua premissa é redução dos impactos negativos decorrentes do modo de produção linear, enraizado na primeira Revolução Industrial, no qual extrair, explorar, transformar e descartar é a única solução vislumbrada.

Europa como exemplo

Recentemente, a União Europeia apresentou um pacote de medidas sobre economia circular como estratégia voltada a estimular a fabricação de produtos sustentáveis, empoderar consumidores a investir em serviços e produtos com potencial de circularidade alto, a fim de eliminar desperdícios. A ideia é instigar a busca por soluções inovadoras e atraentes para empresários e consumidores, investindo em alternativas globais alicerçadas na sustentabilidade.

“Um novo modelo econômico requer políticas transformadoras, inovação, acesso a financiamentos, capacidade de assumir riscos, modelos e mercados comerciais novos e sustentáveis. Sobretudo, devemos abordar o fracasso passado da nossa economia para valorizar a natureza, porque nossa saúde e bem-estar dependem fundamentalmente disso”, afirma Marc Palahí, Diretor do Instituto Florestal Europeu, responsável pelo Plano de Ação da União Europeia para a Bioeconomia Circular de Bem-estar.

Conforme os signatários do Plano, a economia circular se baseia em ecossistemas saudáveis, biodiversos e resistentes e tem como objetivo proporcionar bem-estar através da prestação de serviços ecossistêmicos e gestão sustentável dos recursos biológicos. A bioeconomia circular funciona com energia renovável, inclui e interconecta de maneira integral todos os sistemas e setores da economia.

“A inovação é um elemento-chave para economia circular. Os principais aliados das empresas que buscam a circularidade são a inovação e o design”, ressalta Tatiana Assali, Gerente de Relações Institucionais do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), associação civil sem fins lucrativos, segundo a qual a economia circular deve movimentar 1 trilhão de dólares mundialmente na próxima década.

Comportamento de consumo

Indústria e consumidores precisam pensar em todo o ciclo de vida do produto: de onde vem, para onde vai ou o que vai gerar depois de descartado, observa Maria Lúcia Bianchi, professora doutora do Departamento de Química da Universidade Federal de Lavras, Minas Gerais.

Tatiana Assali lembra que “o perfil do consumidor brasileiro privilegia em maior medida o preço e a conveniência do produto, o que pode representar uma barreira para a circularidade. É fundamental que os consumidores também passem por uma mudança de hábitos e repensem sua forma de consumo.”

A boa notícia é que a sociedade está disposta a mudar. A cada dia surgem novos consumidores conscientes. Pesquisa realizada pela Ipsos Global Advisor com 14 nações revela que 79% dos entrevistados afirma ter vontade de adquirir produtos mais saudáveis e melhores para o meio ambiente. 

E como formar consumidores conscientes? Tatiana Assali sugere que a maneira mais efetiva passa pelo conhecimento e educação, acesso a informações e materiais didáticos que apoiem apostem nas questões socioambientais. “O desenvolvimento socioeconômico e a redução das desigualdades sociais no Brasil são fatores determinantes para a formação de consumidores mais conscientes e também para o avanço da economia circular.”

Indústria circular

A indústria circular pode e deve levar em conta as diferentes realidades locais e regionais, os insumos e recursos existentes na região, por exemplo, e usar o design para otimizar os produtos, que precisam  ser projetados desde o início, do berço ao berço, de maneira que todas as etapas de sua vida sejam pensadas de maneira circular, esclarece Tatiana.

Ações sustentáveis visando o bem-estar das pessoas (chave da economia circular) começam a ser uma realidade no Brasil. Dados de 2019 da Confederação Nacional da Indústria (CNI) indicaram que 76,4% das 1.261 indústrias pesquisadas desenvolviam algum tipo de economia circular com ações que visam o aumento da vida útil de produtos e a partir do uso mais eficiente de recursos naturais.

A economia circular faz com que as empresas não apenas reduzam custos e perdas produtivas, mas também criem novas fontes de receita, estimula a inserção de matéria-prima secundária nos processos produtivos e fomenta o mercado de troca de resíduos, afirma Robson Braga de Andrade, presidente da CNI à Agência Brasil. “Parte da indústria brasileira já adota práticas como a reutilização da água, reciclagem de materiais e a logística reversa, mas ainda há muito a ser explorado no uso eficiente de recursos naturais”, exemplifica Robson.

Tatiana Assali sugere aos empresários que o primeiro passo para maior circularidade é olhar para seus produtos e processos e entender como reduzir o uso de recursos e a geração de resíduos. O segundo passo envolve a análise e busca por novas soluções e produtos olhando para todo o ciclo de vida.

A dificuldade dos empresários em se adaptar às práticas da economia circular passa pelos entraves regulatórios e fiscais que oneram e dificultam a implementação de ações circulares, e pela falta de infraestrutura que possibilite um maior grau de circularidade, frisa Tatiana. “O mundo ainda está preso ao modelo de produção linear: a imensa quantidade de resíduos, por exemplo, não é uma barreira para a economia circular. É apenas um passivo da lógica linear. Na economia circular não existe a ideia do resíduo, pois os fluxos materiais são mantidos em uso em seu mais alto valor. Tornar o modelo econômico circular não significa lidar com os resíduos, e sim repensar a produção e o consumo de maneira que os resíduos não sejam gerados, ou que possam ser reutilizados no processo produtivo. Da mesma forma, a economia circular pode gerar oportunidades de emprego e renda, e contribuir para recuperação econômica, conclui Tatiana. 

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